Zé Carlos Pelicho

Entre o que somos e aquilo que podemos ser

Antes de começar...

Durante muitos anos, a minha vida foi simplesmente vivida.

Trabalhei, viajei, conheci pessoas, atravessei fronteiras, fiz escolhas certas e outras que hoje faria de maneira diferente. Vivi momentos de alegria, mas também conheci a perda, a solidão, a dor e aqueles períodos em que parece não existir uma saída.

Durante muito tempo, não pensei em escrever a minha história. Talvez porque, enquanto estamos a viver, raramente paramos para perceber o significado daquilo que nos acontece. Só mais tarde, quando olhamos para trás, começamos a perceber que certos acontecimentos, que na altura pareciam isolados, estavam afinal ligados entre si.

Uma mudança de casa. Uma escola. Uma perda. Um trabalho. Uma viagem. Uma decisão. Um encontro. Um recomeço. Tudo vai deixando marcas.

Esta autobiografia nasceu dessa vontade de olhar para trás e tentar compreender o caminho que percorri. Não escrevo estas páginas porque considere a minha vida extraordinária. Escrevo-as porque acredito que todas as vidas têm histórias que merecem ser contadas. E porque descobri que, muitas vezes, aquilo que julgamos ser apenas uma dificuldade pessoal pode, mais tarde, transformar-se numa aprendizagem que talvez possa ajudar outra pessoa.

A minha vida foi feita de caminhos. Alguns escolhidos por mim. Outros impostos pelas circunstâncias. E alguns que só compreendi muitos anos depois.

Esta é a história de um rapaz que nasceu numa casa simples, junto a um moinho de vento, que mudou várias vezes de terra, perdeu pessoas que amava, abandonou e retomou os estudos, começou a trabalhar cedo, percorreu as estradas da Europa, viveu na Suíça, regressou a Portugal, voltou novamente à Suíça e encontrou na condução muito mais do que uma profissão.

É também a história de um homem que, depois de atravessar um dos períodos mais difíceis da sua vida, começou uma viagem diferente. Uma viagem para dentro de si próprio. E foi dessa segunda viagem que nasceu o desejo de escrever, partilhar e procurar contribuir para a vida de outras pessoas.

Esta é a minha história.

Capítulo 1 – Um Nascimento Inusitado

Nasci em Vendas Novas, a 21 de setembro de 1961, por volta das três e meia da tarde.

Vim ao mundo numa casa simples, na Quinta do Felizardo, nos Foros dos Infantes, junto a um moinho de vento. Creio que essa casa já não existe, mas a memória daquele lugar continua viva em mim. A minha chegada foi, digamos, mais rápida do que o esperado. A minha mãe, Iréne Maria Firmino, sentiu que o momento se aproximava e pediu ao meu pai, Avelino Fernandes Pelicho, que fosse buscar o médico. Lá foi ele, de bicicleta, a pedais, cheio de pressa.

Mas a vida, desde cedo, parece ter gostado de me mostrar que nem sempre as coisas acontecem como planeamos. Pelo caminho, o meu pai foi mandado parar pela GNR. Naturalmente, isso atrasou-o. Ainda assim, continuou viagem, determinado a cumprir a sua missão.

Quando finalmente o médico chegou, já eu estava cá fora, a chorar, como quem protesta por ter deixado o conforto do ventre materno. Nasci, portanto, praticamente sozinho com a minha mãe. É uma história que ainda hoje me arranca um sorriso.

Talvez tenha sido esse o meu primeiro contacto com uma das grandes lições da vida: nem sempre podemos contar com que tudo esteja no lugar certo, à hora certa. Ainda assim, a vida acontece.

Olhando para trás, gosto de pensar que aquele episódio foi uma espécie de primeiro sinal da personalidade que haveria de construir ao longo dos anos. Antes mesmo de abrir os olhos para o mundo, já tinha começado a minha própria viagem.

Comecei a viver antes de o médico dizer que eu estava cá fora. Comecei a ser antes de o mundo estar preparado para me receber. E talvez essa ideia tenha acompanhado toda a minha vida: chegar, avançar e descobrir o caminho, mesmo quando nem tudo está preparado.

Capítulo 2 – De Terra em Terra: Uma Infância em Movimento

Depois do meu nascimento nos Foros dos Infantes, permaneci em Vendas Novas até aos quatro anos. Era uma vida simples, como tantas outras naquela época, mas rodeada pelo calor da família.
Em 1965, por motivos profissionais dos meus pais, fizemos as malas e mudámo-nos para o Montijo, mais precisamente para o antigo bairro das Areias.

Dois anos depois, em 1967, surgiu um novo destino: Montemor-o-Novo. A casa para onde fomos, porém, era pequena demais. Nem sequer havia um quarto para mim. Os meus pais, pensando no que seria melhor para todos, tomaram uma decisão difícil, mas prática: fui viver com os meus avós, para Bombel.

E foi ali, entre figueiras, laranjeiras e o cheiro da terra, que comecei os meus estudos na instrução primária.

Ainda hoje guardo algumas imagens desses primeiros dias de escola. O cheiro dos cadernos novos. O nervosismo de segurar o lápis. A descoberta das primeiras palavras. E aquela sensação de que, através das páginas de um livro, se abria diante de mim um mundo inteiro por descobrir.

Em 1968, os meus pais encontraram finalmente uma casa maior em Montemor-o-Novo e voltei a viver com eles. Ingressei diretamente na 2.ª classe, tendo como professor o senhor Rufino. Com ele aprendi não apenas a somar e a subtrair, mas também algumas das pequenas regras que fazem parte da vida em comunidade: respeitar os colegas, cumprir as nossas responsabilidades e cuidar daquilo que é nosso. Fiz ali a 2.ª, a 3.ª e a 4.ª classes.

Estávamos então em junho de 1971.

Foram anos aparentemente simples, mas que acabariam por me moldar de uma forma que só muito mais tarde viria a compreender.

Entre mudanças e reencontros, fui aprendendo, ainda criança, que a vida é feita de ciclos. Mudam as casas. Mudam as terras. Mudam as pessoas. Mas existe algo que permanece: a capacidade de nos adaptarmos e de encontrarmos novamente um lugar a que possamos chamar lar.

A cada nova terra, novos rostos. A cada nova casa, uma nova forma de dizer: "Aqui pertenço."

Capítulo 3 – Um Luto Precoce e as Primeiras Feridas da Vida

A minha infância ficou marcada por um golpe que, aos onze anos, eu ainda não tinha idade para compreender verdadeiramente.

Corria o ano de 1973.

No dia 21 de maio, o meu irmão mais velho faleceu.

Era muito mais do que um irmão. Era o meu ídolo, o meu exemplo, alguém por quem sentia uma enorme admiração. Foi a primeira vez que conheci verdadeiramente a dor do luto. Há dores que não conseguimos explicar. Podemos tentar descrevê-las, procurar palavras, recordar momentos, mas há sentimentos que simplesmente se sentem.

Aquela perda marcou-me profundamente.

Até então, a minha vida tinha sido feita de mudanças, casas, escolas e recomeços, mas sempre acompanhada por uma sensação de proteção e de calor familiar. De repente, deparei-me com uma realidade para a qual nenhuma criança está preparada: há pessoas que amamos e que, por mais que desejemos, não podemos trazer de volta.

Ainda assim, a vida continuou.

Em 1976, depois de ter deixado a escola no ano anterior, andei algum tempo sem saber muito bem que rumo seguir. Durante dois dias guardei porcos. Depois fui ajudante de mecânico de motorizadas durante cerca de quatro meses. Eram trabalhos simples. Talvez até parecessem experiências sem grande importância. Mas hoje, olhando para trás, percebo que também eles fizeram parte da minha aprendizagem.

Um dia, talvez cansado daquela sensação de andar sem rumo, ganhei coragem e pedi à minha mãe para voltar a estudar. Ainda hoje recordo o sorriso com que recebeu o meu pedido. Havia ternura, mas também alegria.

Ela aceitou. E eu voltei à escola com mais vontade do que nunca.

No ano letivo de 1976/77 completei o 7.º ano de escolaridade, sem negativas. Senti-me orgulhoso. Era como se, depois de ter caído, estivesse novamente a aprender a caminhar pelas minhas próprias pernas.

Mas a vida tinha mais uma prova preparada. No ano letivo de 1977/78, no dia 11 de novembro, o meu pai sofreu um grave acidente de viação. Cinco dias depois, a 16 de novembro, nasceu o meu irmão mais novo.

Enquanto um lutava entre a vida e a morte, outro acabava de chegar ao mundo. A nossa casa ficou dividida entre o silêncio da preocupação e o choro de um recém-nascido.

A minha mãe vivia entre o hospital e a criança que acabara de nascer.

Eu tinha apenas dezasseis anos. Ficava muitas vezes sozinho em casa ou andava pelas ruas até de madrugada.

O meu pai permaneceu 54 dias em coma. A minha mãe, com o coração nas mãos, enfrentava tudo aquilo que a vida lhe colocava pela frente. Ao mesmo tempo, tratava dos documentos e de tudo o que era necessário para construirmos uma casa em Bombel.

Eu tinha também a minha responsabilidade: ajudar a tomar conta do bebé. E fiz isso com gosto.

Naturalmente, todas aquelas circunstâncias tiveram consequências na escola. Com tantas faltas, acabei por chumbar o ano. Faltavam apenas quinze dias para a Páscoa.

Mas eu era — e talvez continue a ser — um homem que gosta de procurar soluções.

Pedi transferência de escola. Em abril de 1978, comecei a estudar nos antigos Salesianos, em Vendas Novas, a minha terra natal. Fui bem acolhido. Fiz novas amizades, reencontrei pessoas conhecidas e consegui terminar o ano com sucesso.

No ano seguinte, em 1978/79, voltei a estudar em Montemor-o-Novo, onde completei o 9.º ano. Curiosamente, nessa altura já vivia em Bombel. A minha mãe tinha conseguido vender a casa de Montemor e, com o dinheiro, construiu uma nova casa no terreno da família.

Foram anos intensos. Anos de perdas, mudanças, responsabilidades e decisões que nenhuma criança ou adolescente deveria ter de enfrentar tão cedo. Mas foram também anos de aprendizagem.

Foi talvez nessa época que comecei a descobrir uma característica que me acompanharia durante toda a vida: quando a vida me obrigava a parar, eu procurava uma maneira de recomeçar.

Capítulo 4 – Primeiros Passos no Mundo do Trabalho

Chegara o momento de começar a construir a minha vida profissional.

O meu primeiro trabalho foi como ajudante de camionista, a carregar madeira para a Portucel. Naquela época, a realidade era muito diferente da de hoje.

A tecnologia era escassa e não existiam as gruas e os meios mecânicos que atualmente facilitam grande parte desses trabalhos. Era tudo carregado à mão. Foi uma verdadeira escola de esforço.

Aprendi ali que o trabalho não é apenas aquilo que fazemos para ganhar dinheiro. É também aquilo que nos ensina disciplina, resistência e responsabilidade.

Passaram-se mais três anos e, em 1981, surgiu uma nova oportunidade de conhecer mundo. Com a mochila às costas, parti à descoberta da Europa. Andando à boleia e trabalhando em várias quintas pelo caminho.

 

Foi uma experiência de liberdade e descoberta. Eu era jovem e tinha vontade de conhecer outros lugares, outras pessoas e outras formas de viver. Ainda não sabia, mas aquelas viagens seriam apenas o princípio de muitas outras estradas que haveria de percorrer.

Capítulo 5 – Entre Portugal e a Suíça: A Vida na Estrada

De regresso a casa, em 1982, tirei a carta de condução de pesados.

Pouco depois, voltei à Suíça, desta vez com um contrato de trabalho. A minha primeira experiência foi como ajudante de pasteleiro no Hotel Penta, em Genebra. Não foi, contudo, uma experiência gratificante. Ao fim de quatro meses, rescindi o contrato e acabei por permanecer no país numa situação irregular.

Foi então que a vida voltou a surpreender-me. Encontrei trabalho a limpar piscinas. Foi uma época curiosa e cheia de histórias. Tive, inclusivamente, a oportunidade de limpar a piscina de Alain Delon e uma piscina olímpica pertencente a um príncipe kuwaitiano, construída na cave de um castelo do século XVII, com pequenos azulejos de 2 × 2 centímetros revestidos a ouro.

Era um cenário que contrastava completamente com a vida simples de onde eu vinha. Mas a minha situação na Suíça continuava a ser precária. Acabei por ser descoberto e enviado de volta para Portugal, com uma proibição de entrada na Suíça durante três anos.

Estávamos em fevereiro de 1984.

Pouco depois da minha chegada, o meu primo Quim perguntou-me se estaria interessado em trabalhar como motorista da manutenção do Isidoro. Aceitei. O meu trabalho consistia em conduzir um jipe UMM, transportando profissionais — mecânicos, eletricistas, pedreiros, torneiros — para os locais onde eram necessários. Mas eu queria mais. Um mês antes de o contrato terminar, enviei o meu modesto currículo para os Transportes Pedrosa. Para minha surpresa, o senhor Artur Pedrosa aceitou-me como motorista.

Nos Transportes Pedrosa comecei por fazer o serviço da Quimigal, no Barreiro, transportando adubos para o Algarve. Diariamente passavam pelas minhas mãos cerca de 500 sacos de 50 quilos — aproximadamente 25 toneladas. Fiz esse serviço durante oito meses.

Depois, a empresa transferiu-me para o serviço internacional e atribuiu-me uma velha DAF 2800. Foi aí que a estrada começou verdadeiramente a fazer parte da minha vida. Durante anos percorri as estradas da Europa. Em 1989, depois de algum tempo nos Transportes Pedrosa, senti que estava na altura de procurar algo novo.

Surgiram propostas que pareciam mais aliciantes, mas que, por uma razão ou outra, acabaram por não se concretizar. A vida, mais uma vez, colocava-me perante uma curva.

Em 1990 aceitei o cargo de chefe de tráfego na empresa M. F. Duarte.

 

À partida, parecia uma boa oportunidade. Afinal, era um cargo de responsabilidade. Mas rapidamente percebi que aquela função não combinava comigo. O ambiente era confuso, havia cinco telefones constantemente a tocar e eu sentia pouca transparência na forma como os negócios eram conduzidos. Comecei a sentir-me enclausurado. Era como se me tivessem tirado o volante das mãos. E foi então que percebi uma coisa sobre mim: eu precisava da estrada.

A liberdade de conduzir era a minha praia.

Em 1991 voltei àquilo que realmente gostava. Entrei nos Transportes Robalo e comecei a transportar automóveis. Foi nessa fase que vivi uma das experiências mais marcantes da minha vida profissional: o transporte de automóveis antigos em Monte Carlo.

Recordo com particular nitidez o dia em que carreguei um Bugatti Type 35, uma verdadeira preciosidade cujo seguro, segundo me foi dito, estava avaliado em um milhão de dólares.

Olhar para aquela máquina e saber o seu valor era suficiente para fazer acelerar o coração. Eu estava a viver uma vida em que o trabalho me proporcionava histórias. Mas as estradas da vida continuavam a surpreender-me.

No final de 1994, decidi regressar à Suíça.

 E, quase como se o destino estivesse novamente a abrir uma porta, fui aceite logo na primeira empresa onde procurei trabalho: a Friderici S.A.

O meu currículo falava por mim.

Voltar à Suíça foi, simultaneamente, um recomeço e uma continuação. Reencontrei o ritmo de vida europeu e uma rotina profissional mais estruturada. Mas, por dentro, continuava inquieto. A vida profissional seguia o seu curso, enquanto a vida pessoal começava a sofrer as consequências das exigências do trabalho, da distância e das ausências.

Com o tempo, mais um casamento chegou ao fim.

No ano 2000 tentei novamente reinventar-me. Tornei-me taxista na cidade de Nyon. A ideia parecia perfeita: estar ao volante, contactar com pessoas e manter a liberdade de movimento. Mas a realidade foi diferente. O sistema de comissões não compensava e o desgaste físico e emocional começou a fazer-se sentir.

Percebi rapidamente que aquela não era a estrada certa para mim.

Em 2001 encontrei finalmente o equilíbrio profissional que procurava. Entrei nos Transportes Públicos de Genebra. Comecei por conduzir trolleybus, aqueles autocarros elétricos ligados a fios aéreos, semelhantes aos que existiam em Coimbra. Era um trabalho com horários definidos, contacto diário com passageiros e, acima de tudo, uma coisa que para mim fazia toda a diferença: o volante estava nas minhas mãos.

Várias vezes o meu chefe tentou convencer-me a mudar para os tramways, os elétricos. A minha resposta era sempre a mesma: "Se me tiram o volante, já não sei conduzir." A condução era, para mim, muito mais do que uma profissão. Era uma paixão. Era uma espécie de meditação em movimento.

Durante aqueles anos, eu ainda não sabia que me aproximava de uma das fases mais difíceis da minha vida.

E que seria precisamente dessa escuridão que nasceria uma nova versão de mim.

Capítulo 6 – A Travessia da Escuridão

O ano era 2010.

Até então, já tinha vivido muitas mudanças: viagens, empregos, cidades, relações, desafios e recomeços. Mas nada me tinha preparado verdadeiramente para o que estava prestes a acontecer. Foi como entrar num túnel escuro sem aviso, sem manual e sem mapa para encontrar a saída. Os sinais já estavam presentes há algum tempo. A solidão, que vinha crescendo ao longo dos quatro anos anteriores, tornara-se uma companheira constante. Depois começaram a desaparecer alguns dos pilares mais importantes da minha vida.

Perdi a minha avó. Depois, o meu pai. E, quatro meses mais tarde, a minha mãe.

Cada perda era como uma parede a desabar dentro de mim. Como se isso não bastasse, o meu filho foi viver para Portugal e o meu casamento chegou ao fim.

De repente, senti que tinha ficado sem chão.

Aquela força interior que durante tantos anos me tinha feito continuar, mesmo quando não sabia muito bem para onde ia, começou a desaparecer.

Pela primeira vez, parei verdadeiramente. Não para descansar. Parei porque já não encontrava forças nem clareza para continuar. Afastei-me do trabalho, fechei-me no silêncio e mergulhei numa tristeza profunda.

Não encontrava ânimo. Sentia o peso de uma vida inteira acumulada sobre os meus ombros, com todas as suas dores, perdas e perguntas sem resposta. Por dentro, era como se tivesse perdido o sentido. Não entrarei em muitos pormenores sobre esse período. Há dores que não precisam de ser explicadas a quem já as conheceu.

Mas lembro-me perfeitamente de um momento aparentemente insignificante que acabaria por mudar o rumo da minha vida. Estava sentado, sozinho, diante do computador. Sem saber muito bem porquê, escrevi no Google: "Como ser feliz"

Foi uma pesquisa simples. Quase inocente. Mas aquela pergunta abriu uma porta.

Era como se uma parte de mim, há muito tempo adormecida, tivesse finalmente encontrado algo que procurava.

Encontrei textos, vídeos, depoimentos, livros — e comecei a ler. Era como se a minha alma, sedenta há anos, finalmente tivesse encontrado água. O tema do autoconhecimento apareceu à minha frente como um convite silencioso. E aceitei.

Li mais de 200 livros — alguns de forma quase compulsiva, como se estivesse a recuperar tempo perdido. Mergulhei em temas que me falavam diretamente ao coração: crenças pessoais, inteligência emocional, espiritualidade, física quântica, cura interior. Não era apenas uma curiosidade. Era uma necessidade.

Comecei a compreender que o sofrimento, muitas vezes, nasce das histórias que contamos a nós próprios. Das crenças que herdamos sem perceber. Dos medos que nos governam em silêncio. E mais importante: percebi que tudo pode ser transformado. Não da noite para o dia, mas com consciência, com prática, com vontade.

Participei em workshops na Suiça, no Brasil e em Portugal, fiz cursos online com professores reconhecidos mundialmente e, a cada passo, fui-me reencontrando. Pela primeira vez, a vida deixou de ser apenas uma estrada a percorrer, e passou a ser um espaço de descoberta interior.

Dei por mim a mudar por dentro — a tornar-me mais observador, mais calmo, mais empático. As perguntas que antes me angustiavam passaram a inspirar-me. E com o tempo, renasceu também um desejo: o de partilhar.

Capítulo 7 – Luz ao fundo do caminho

A partir do momento em que comecei a mergulhar no autoconhecimento, tudo começou a mudar — não de forma mágica, mas profunda e verdadeira. Era como se, depois de atravessar a noite escura da alma, eu tivesse finalmente encontrado uma lanterna. E, com ela, descobri que sempre houve uma luz dentro de mim… apenas precisava de ser acesa.

Durante meses, estudei. A cada livro que lia, uma ficha caía. A cada vídeo, um novo entendimento surgia. E comecei a perceber que muitas das dores que carregamos vêm de crenças limitadoras que adotamos sem saber. Coisas como "não sou capaz", "não mereço", "a vida é sofrimento". Crenças herdadas da família, da sociedade, de experiências passadas — e que moldam silenciosamente as nossas escolhas, os nossos relacionamentos, os nossos caminhos.

Perceber isso foi libertador. Era como se, aos poucos, estivesse a recuperar a chave da minha própria vida. E, ao fazê-lo, senti algo que não sentia há muito tempo: vontade de ajudar.

Foi então que decidi criar um blog.

Não sou escritor de profissão, mas sou contador de histórias de coração. E entendi que, se aquilo que aprendi me ajudou tanto, talvez também pudesse ser útil a outras pessoas. Assim nasceu o blog — não como um projeto vaidoso, mas como uma ponte. Uma forma de partilhar luz, de estender a mão a quem possa estar a atravessar o mesmo túnel escuro por onde eu passei.

Alguns textos são da minha autoria. Outros são reflexões que me tocaram e quis trazer para quem me lê. O objetivo é simples, mas profundo: contribuir. Ajudar. Despertar.

Acredito, com toda a certeza do meu ser, que o conhecimento liberta. Que quando aprendemos a observar os nossos pensamentos, a questionar os padrões que nos limitam, começamos a ver o mundo com novos olhos. E que, mesmo nas situações mais difíceis, há sempre uma centelha de luz à espera de ser descoberta.

Capítulo 8 – Da Estrada à Escrita: Um Novo Caminho

Durante muitos anos, a minha vida foi feita de movimento.

Conduzi camiões por estradas nacionais e internacionais. Atravessei fronteiras, conheci cidades, trabalhei em diferentes países e vivi experiências que, naquela altura, me pareciam simplesmente fazer parte da vida. O volante foi, durante muitos anos, uma extensão de mim. Gostava da estrada porque me dava liberdade. Gostava de partir, chegar, descobrir novos lugares e sentir que havia sempre um caminho à minha frente.

Mas, depois de tudo o que vivi, comecei a compreender que existe uma diferença entre andar muito e saber para onde vamos. Durante grande parte da minha vida, procurei caminhos no mundo exterior.

Depois de 2010, comecei a procurar caminhos dentro de mim.

Essa mudança não aconteceu de um dia para o outro. Foi acontecendo aos poucos, através dos livros que li, dos cursos que fiz, das pessoas que conheci e, sobretudo, das perguntas que comecei a fazer a mim próprio.

Quem sou eu? Porque penso desta maneira? Porque reagimos como reagimos? O que nos impede de sermos quem realmente somos? Será possível mudar a forma como vemos a vida?

Quanto mais procurava respostas, mais perguntas surgiam. E percebi uma coisa que talvez seja uma das maiores descobertas da minha vida: o autoconhecimento não nos dá todas as respostas; dá-nos melhores perguntas. Foi também nessa altura que comecei a descobrir o prazer da escrita. No início, escrevia sobretudo para mim.

Era uma forma de organizar pensamentos, registar aquilo que estava a aprender e tentar transformar em palavras aquilo que, muitas vezes, era difícil explicar. A escrita tornou-se uma espécie de conversa comigo próprio. Ao escrever, conseguia parar. Observar. Pensar. E, sobretudo, compreender.

Aquele homem que durante tantos anos tinha vivido ao volante começou, de certa forma, a encontrar outro volante: o da própria consciência.

Já não se tratava de conduzir uma máquina por uma estrada. Tratava-se de aprender a conduzir a própria vida. Foi dessa necessidade de partilhar que nasceu o meu blog.

No início, não sabia exatamente onde aquela experiência me levaria. Sabia apenas que tinha aprendido coisas que me tinham ajudado e que gostaria de as colocar ao alcance de outras pessoas. Comecei a escrever sobre aquilo que me despertava interesse: desenvolvimento pessoal, mente, corpo, espiritualidade, autoconhecimento, emoções e formas de viver melhor.

Aos poucos, o blog foi crescendo. E com ele cresci também eu.

Aprendi a pesquisar, a escrever, a organizar ideias, a criar páginas, a lidar com a tecnologia e a descobrir um mundo que, durante os anos em que fui motorista, estava muito longe das minhas preocupações. Talvez seja uma das ironias bonitas da vida. Passei décadas a percorrer quilómetros pelas estradas da Europa. Mais tarde, comecei a percorrer caminhos através das palavras. E descobri que também é possível viajar sem sair do lugar. Uma ideia pode levar-nos mais longe do que muitos quilómetros. Um livro pode transportar-nos para dentro de outra pessoa. Uma história pode fazer-nos companhia num momento de solidão. E uma simples frase pode, por vezes, chegar a alguém precisamente quando essa pessoa mais precisa dela. Foi isso que comecei a compreender.

O conhecimento que acumulamos só ganha verdadeiro significado quando conseguimos transformá-lo em algo que possa ser útil aos outros. Por isso, o blog deixou de ser apenas um espaço onde eu escrevia. Passou a representar uma parte do meu propósito. Não tenho a pretensão de ter todas as respostas. Continuo a aprender. Continuo a questionar. Continuo a mudar. E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que descobri nesta nova fase da minha vida: não precisamos de ter chegado ao fim da nossa própria caminhada para podermos ajudar alguém que está alguns passos atrás.

Podemos partilhar aquilo que já aprendemos enquanto continuamos a aprender. É isso que procuro fazer. Hoje, quando olho para a minha vida, vejo duas grandes viagens.

A primeira foi feita pelas estradas. A segunda começou quando parei de procurar apenas o mundo exterior e comecei a olhar para dentro de mim. A primeira ensinou-me a conhecer lugares. A segunda ensinou-me a conhecer pessoas. E, sobretudo, ensinou-me a conhecer-me um pouco melhor. Talvez, no fundo, ambas sejam a mesma viagem. Porque todas as estradas que percorri, todas as pessoas que conheci, todas as perdas que enfrentei e todas as escolhas que fiz trouxeram-me até aqui.

Ao homem que hoje escreve estas palavras.

Não sei exatamente onde esta nova estrada me levará. Mas já não tenho a mesma pressa de antigamente. Hoje sei que algumas viagens não têm como destino um lugar. Têm como destino quem nos tornamos pelo caminho. E essa viagem ainda não terminou

Epílogo – A Estrada Continua

Quando olho para trás, percebo que a minha vida foi feita de duas grandes viagens. A primeira levou-me pelas estradas de Portugal e da Europa. A segunda levou-me para dentro de mim. Na primeira, procurei lugares. Na segunda, procurei respostas. E talvez só agora compreenda que ambas faziam parte da mesma viagem.

Não vejo uma linha reta. Vejo um caminho cheio de curvas, subidas, descidas e cruzamentos inesperados. Vejo casas onde vivi, escolas por onde passei, pessoas que conheci, trabalhos que tive, lugares que descobri, amores que chegaram e partiram, perdas que me marcaram e momentos que me fizeram recomeçar.

Cada paragem teve o seu significado. Cada queda trouxe uma aprendizagem. Cada recomeço acrescentou alguma coisa ao homem que hoje sou. Não escrevo estas palavras para me vangloriar. Escrevo-as para recordar. Para compreender. E, se possível, para deixar alguma coisa a quem um dia venha a ler esta história.

Ao longo da minha vida aprendi que não existe uma vida perfeita. Mas pode existir uma vida com propósito. E isso faz toda a diferença. Não somos apenas aquilo que nos aconteceu. Somos também aquilo que escolhemos fazer com aquilo que nos aconteceu. Podemos ficar presos às dores do passado ou transformá-las em força para seguir em frente. Podemos repetir os mesmos padrões ou questioná-los. Podemos continuar a caminhar às cegas ou começar, pouco a pouco, a olhar para dentro.

Hoje, aos sessenta e alguns anos, não me sinto velho. Sinto-me desperto.

Porque compreendi que envelhecer não significa parar. Muitas vezes, significa começar a viver de outra maneira: com mais experiência, mais consciência, mais serenidade e, talvez, mais verdade. Esta autobiografia é apenas um pedaço da minha história. Mas é também um convite. A ti, que lês estas páginas, deixo uma mensagem simples: escuta-te.

Respeita o teu ritmo. Não tenhas medo de mudar de direção. E nunca deixes de procurar a tua própria luz, mesmo quando ela parece distante, fraca ou escondida. Talvez descubras que ela nunca deixou de estar contigo. Se um dia te sentires perdido, lembra-te: a estrada não termina quando tropeçamos.

Termina quando desistimos de continuar.

Enquanto houver vontade de dar mais um passo, haverá sempre caminho. E eu continuo a caminhar. Com mais perguntas do que certezas. Com mais consciência do que respostas. Com o coração em paz e a alma ainda em construção. Porque, afinal, talvez a maior descoberta da minha vida tenha sido perceber que não precisamos de chegar a um destino para sentir que estamos no caminho certo.

Basta continuar a caminhar.

A minha história começou antes de o mundo estar preparado para me receber. E, muitos anos depois, descobri que a história ainda não terminou. A estrada continua.

Com gratidão,

Zé Carlos Pelicho